50 anos depois, ainda relevante

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Velvet Underground & Nico – Capa

Citado quase que de forma unânime por críticos de música jornalistas especializados em rock ou em vertentes mais alternativas da música pop, o disco Velvet Underground & Nico – conhecido pelos mais chegados como o “Disco da Banana” completou em meados deste mês de março seus 50 anos de lançamento.

À época, foi um fracasso retumbante de vendas, mas veio ganhando importância e relevância ano a ano, inaugurando o estilho chamado de “art rock” e sendo apontado como uma das pedras fundamentais de gêneros como glam rock, punk, pós-punk, grunge e indie Rock. Composto por músicos como a baterista Maureen Tucker, o guitarrista Sterling Morrison, o multi-instrumentista John Cale e o guitarrista, compositor e vocalista Lou Reed, o grupo foi apadrinhado pelo renomado artista Andy Warhol e em seu début foi acrescido da cantora-modelo-atriz-e-performer alemã Nico – batizada desta forma por Warhol para ser um anagrama da palavra Icon (ícone, em inglês) e cujo nome “real” era Christa Päffgen.

Nico

Nico

Em partes, o que explica o fracasso de vendas do álbum em seu ano de estreia foi a temática abordada nele, contrastando com os ideais do ainda vivente movimento Hippie. Lou Reed percebia, à época, que a utopia começava já a querer fazer água mesmo estando no auge e que o slogan Paz & Amor não fazia sentido para muita gente soterrada pelo peso do dia a dia nas grandes metrópoles e que força do Flower Power não era suficiente para colorir muitas vidas que ainda sofriam em decorrência de discriminações e marginalizações das mais variadas naturezas. Sendo um cronista da decadência do sonho coletivo da época, é fácil perceber porque Reed e seu grupo não emplacaram de início.

No entanto, conforme os anos iam se passando, o retrato cantado pelas canções do Velvet Underground parecia cada vez mais próximo da realidade, em comparação com os anseios hippies. Richard Nixon na presidência dos EUA, Margaret Thatcher galgando espaço cada vez maior no Reino Unido – culminando em sua escolha para ocupar o cargo de 1ª Ministra ao fim da década de 1970, Crise do Petróleo, Acirramento da Guerra Fria, Ditaduras recrudescentes na América Latina… Os anos 70 pareciam, politicamente, a antítese da década anterior. Neste momento, os poucos milhares que puseram as mãos em cópias de The Velvet Underground & Nico decidiram montar suas próprias bandas ou se posicionar de forma mais efetiva sob os holofotes. Daí vieram David Bowie, T-Rex, Stooges, New York Dolls, Sex Pistols, Ramones… e o rock tomou o rumo que conhecemos hoje.

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Velvet Underground & Nico

Voltando ao disco em si e deixando de lado a conjuntura que explica seu surgimento, seu fracasso inicial e seu posterior sucesso, ele abre com uma balada suave, que não indica em absoluto os caminhos que a obra irá tomar. Trata-se da sublime Sunday Morning, cantada por Reed numa voz quase angelical sobre momentos passado, sonhos e paranóia, conduzida por uma melodia quase onírica e extremamente simples, contrastando com os maneirismos do rock psicodélico da época que já estavam enveredando por um caminho que desembocaria no Rock Progressivo que logo surgiria.

Já na sequência, a agitação e as melodias angustiantes começam a tomar conta do álbum, com I’mWaiting For the Man, que narra o encontro de um indivíduo com o seu traficante no subúrbio de Nova York, passando por erotismo e sadomasoquismo de Femme Fatale e de Venus in Furs que vêm em seguida, abrindo caminho novamente para a temática vinculada ao uso de drogas e ao ritmo mais frenético de Run, Run, Run, que elenca uma série de tipos aparentemente estranhos como personagens, mas que compunham a “fauna” habitual da vida noturna da Big Apple. Depois vêm duas obras-primas… uma, encerrando o “lado A” do disco e outra abrindo o “lado B” (das coisas deliciosas de se ouvir discos de Vinil… a relação física e visual com a execução da música): All Tomorrow’s Parties – com melodias complexas e um brilhante vocal de Nico – e Heroin – apontada como uma apologia ao uso da droga, mas descrita por Reed como apenas uma crônica sobre o dia a dia de um usuário da substância.

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A banda em Ação no evento “Exploding Plastic Inevitable”, de Warhol

O Disco já está na reta final quando se ouve o Rythm & Blues amalucado e desconstruído de There She Goes Again, talvez uma das canções com estrutura mais próxima da música pop em todo o disco e cantada magistralmente por Lou Reed, levando em conta, claro, suas limitações técnicas enquanto cantor. Em seguida, um novo momento de simplicidade com I’ll Be Your Mirror, cantada de forma sublime e suave por Nico. Depois envereda-se novamente por caminhos experimentais de sonoridade desafiadora com as duas faixas derradeiras: The Black Angel’s Death Song e por fim European Son, com a letra ocupando apenas um dos longos 8 minutos de toda sua duração.

Ao fim e ao cabo, temos aqui um exemplo de uma obra musical que entrou para a história como item essencial de qualquer discoteca-básica de quem pretende entender os rumos da música pop desde o surgimento do rock’n’roll nos anos 50 até os desdobramentos atuais nos mais diversos gêneros, ritmos, estilos, vertentes etc. É um disco que demanda audição atenta e cuidadosa, que ganha novas camadas de sentido ao longo dos anos. Vida longa a The Velvet Underground & Nico, que certamente seguirá sendo revolucionário e relevante por outros 50 anos mais.

Ouça:

 

Ah… só mais duas curiosidades sobre o disco:

  1. O Disco originalmente tinha uma capa “interativa”, bem a gosto de Andy Warhol – que também projetou a clássica capa de Sticky Fingers, dos Rolling Stones (entre outras…) que continha uma calça com zíper que podia ser aberto. No caso deste Velvet Underground & Nico, é a banana que pode ser descascada.

    Velvet Underground - Banana Descascada

    A Banana – capa “descascada”

  2. O álbum foi gravado no mesmo endereço onde, anos depois, viria a ser a lendária casa noturna Studio 57, pilar da cultura Disco que dominaria a música pop e a vida noturna pouco mais de uma década depois.

20 anos de Ok Computer

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Capa- Ok Computer

Angústia, um mar de dúvidas às vésperas do fim do milênio, avanços tecnológicos admiráveis e ao mesmo tempo temíveis pela incerteza do que surgiria a partir deles… tudo isso faz parte do caldeirão distópico e abrasivo, entremeado por guitarras angulosas e texturas eletrônicas de OK Computer, terceiro álbum de estúdio lançado pela banda britânica Radiohead.

Estranho até imaginar, à época, que um grupo apontado até pouco tempo antes daquele momento como uma One Hit Wonder, graças à performance de Creep nas paradas globais, fosse atingir o patamar de excelência artística acompanhada de grande êxito em termos comerciais que o Radiohead atingiu em decorrência dessa obra-prima que neste mês completa 20 anos de lançada e que já havia atingido o status de “clássico instantâneo” desde praticamente o momento em que chegava às lojas.

Claro que para os já versados na discografia da banda já era nítido que eles davam sinais de franca evolução já a partir do álbum anterior, The Bends, em comparação com o Début da banda, Pablo Honey. Se em Pablo Honey os arranjos Grunge falavam mais alto e em The Bends o que ditava o andamento era a presença pujante das 3 guitarras em camadas complementando o sentido e as sensações causadas pelas letras cada vez mais poéticas de Thom Yorke, em OK Computer tudo parecia tender ao caos, dialogando com a temática áspera das canções que alternavam críticas políticas e ao hiperindividualismo com crônicas sobre o isolamento emocional que começava a dar o tom das relações sociais. Tudo isso, claro, acrescido das impressões sobre as novas tecnologias que surgiam em profusão num mundo cada vez mais conturbado.

Thom Yorke

Thom Yorke em 1997, ano de lançamento de Ok Computer

Para o grande público e até mesmo para a crítica, no entanto, é inegável o espanto e também o encanto com o lançamento de Ok Computer, um verdadeiro divisor de águas para a banda. O estranhamento antes do lançamento era tanto que sua gravadora nos EUA reduziu as expectativas de vendas de 1 milhão de unidades para menos de 450 mil cópias vendidas. Surpreendentemente, para a empresa, o sucesso foi praticamente imediato e extremamente sólido e o disco chegou a bater a casa dos 8 milhões de cópias vendidas desde o lançamento até os dias de hoje. Só em 1997, foram 2 milhões de unidades vencidas. Nada mal, não é mesmo?

A importância deste álbum, não só para a discografia do Radiohead mas para toda a música contemporânea e, (por que não?) para a cultura pop como um todo é inegável. Tanto que a imprensa especializada britânica costuma colocar Ok Computer brigando no top 3 dos discos mais importantes de todos os tempos no pop/rock local com preciosidades históricas como Exile on Main Street dos Rolling Stones e Revolver, dos Beatles.

Se antes de Ok Computer o Radiohead era apontado como uma banda de um hit só e recebia apelidos pejorativos como Nirvaninha, após esse disco ficou claro que o Rock era pequeno demais para a banda. Desde então, Thom Yorke e seus colegas mergulharam de vez no experimentalismo e vêm lançando trabalhos cada vez mais complexos, alguns com muita beleza e outros nem tanto. Mas o fato é que o cenário musical e cultural atual tem hoje um lugar cativo para esse grupo entre os mais influentes de todos os tempos.

Não conhece ainda? Ouça!

Um brinde para Patti Smith

Patti Smith – por Robert Mapplethorpe

Dentre tantas grandes mulheres do mundo da música, certamente uma das maiores é Patti Smith. Pioneira numa época em que a música pop era dominada por um ethos machista que permeava desde a temática das canções até as práticas abusivas de artistas & empresários do sexo masculino em relação às colegas e fãs, Patti soube não só se destacar mas marcar de forma permanente seu território entre os maiores de todos os tempos no rock’n’roll.

Sem Patti, não teríamos, por exemplo, outras grandes artistas contemporâneas como Kim Gordon do Sonic Youth ou PJ Harvey, entre outros(as). Não teríamos também um movimento punk com a força e a expressão que possuiu desde seu primeiro momento. Todos os punks, de 1977 até os dias atuais a apontam como uma das maiores influências em seus trabalhos.

Uma das obras mais expressivas de Patti Smith é o clássico disco Horses, em que ela funde magistralmente letras poéticas com melodias marcadas pelos sentimentos de angústia e urgência que ditavam o comportamento dos jovens na cena Rocker do final dos anos 70.

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Capa de Horses

Toda a parte gráfica do disco ficou sob a responsabilidade do grande fotógrafo Robert Mapplethorpe, companheiro dela desde 1967 até sua morte por complicações em decorrência da AIDS em meados da década de 90. Robert soube capturar a aura de Patti enquanto uma mulher de muita força, pronta para colocar em xeque os papeis tradicionais de gênero e revolucionar não só a música, mas o comportamento de toda uma geração e reverberando nas futuras.

Sendo assim, deixo como forma de homenagem aos 70 anos dessa semideusa do rock, completos em meados do último mês de dezembro, uma playlist criada com alguns dos principais trabalhos dessa poderosa pioneira, que transformou poesia pura em música contundente e também canções de outras mulheres fantásticas… algumas que têm influência direta dela em suas obras e outras que são contemporâneas e de igual relevância artística e politicamente.

De volta… como o Grandaddy. :P

Grandaddy

Grandaddy – créditos: grandaddymusic.com – divulgação

Bom… aqui estou eu, novamente, tentando voltar à ativa neste blog intermitente. Depois de alguns anos mais frequente e outros com atividade bissexta, eu voltei… ou ao menos estou tentando voltar. Hora de botar uma camada de óleo nas juntas dos dedos para retirar a ferrugem e assim voltar a dar meus pitacos por aqui. E nada mais justo para marcar esse recomeço que comentar sobre um inesperado lançamento de uma banda que desde 2006 não botava nada novo na praça, a Grandaddy que abriu o mês de março botando na roda o interessante Last Place.

Para alguns, principalmente para os meus pares de geração que cresceu caçando downloads musicais em ferramentas como Napster e Soulseek e presencia hoje o domínio dos serviços de streaming em áudio e vídeo que oferecem conteúdo (quase) ilimitado a qualquer hora e em praticamente qualquer lugar – basta ter uma conexão decente com a web e pronto.

Para os que não conhecem, Grandaddy é um grupo norte-americano liderado pelo vocalista, compositor, guitarrista & tecladista Jason Lyttle e que possui uma sonoridade bastante instigante, baseada em atmosferas neo-psicodélicas conduzidas ora pelas suaves guitarras e ora pelos marcantes teclados lo-fi de lyttle. Tudo isso recheado com letras bastante poéticas ao mesmo tempo que bem simples. Quem conhecer mais a fundo, todos os 6 discos anteriores são de grande valor artístico, sendo o álbum lançado em 2000 – The Sophtware Slump – sua obra prima, na minha humilde opinião. E o derradeiro disco até o presente momento, lançado em 2006 – Just Like the Fambly Cat, o mais dispensável de toda a discografia.

GD - Last Place

Capa de Last Place. Créditos: grandaddymusic.com – divulgação

Voltemos agora para 2017 e a chegada de Last Place. A primeira impressão que se tem é a de que aparentemente os anos não passaram para a banda… ou passaram de forma suave, dado o frescor deste lançamento e a sensação que se tem de que o entrosamento entre os músicos não sofreu qualquer arranhão ao longo da década de hiato. Jason Lyttle continua afiado na composição de suas melodias simples, cativantes e recheadas de camadas sonoras de certa forma confortáveis e acalentadoras, que em alguns momentos fazem a imaginação flutuar em doces sonhos lúcidos & lúdicos, como na doce sequência que embala o meio para o final do disco, marcada pela cadência de This is what you get for getting outta bed, seguindo para a maciez do arranjo de cordas em This is the Part, que emenda com as pinceladas de estranhamento estrategicamente plantadas nas transições de Jed the 4th.

Talvez Last Place possa soar um tanto datado para quem já conhece bem a banda ou um tanto alheio à sonoridade do momento presente para quem ainda não tinha ouvido falar desses caras, mas… nada disso tira a relevância e as qualidades do álbum, que são muitas. No fim das contas, dá pra dar bem uma nota 7 e ficar feliz com a audição. Não é nada que vá mudar o mundo e nem pirar a cabeça do ouvinte, mas passa longe de ser insosso. É sim um disco bem interessante que vale a pena ser ouvido e honra a trajetória da banda, não fazendo nenhum pouco feio entre o que já foi lançado até o momento para o estilo.

Ouça:

Veja:

SUAVIDADE E DESESPERO

Are We Therequarto disco da cantora e compositora norte-americana mostra uma artista madura e segura de si

Vez por outra o universo Pop entrega alguns presentes no colo de quem é ávido por novidades. Nesse caso, na real, novidade só pra mim, pois Sharon Van Etten pode ser chamada, nestes tempos em que cada vez mais artistas vêm e vão no meio musical como grandes promesas que nunca se cumprem de fato, de uma veterana. Com 4 discos lançados desde 2009, vem amadurecendo uma estética sonora em que a intensidade dramática e a melancolia dão o tom e que parece estar chegando em seu ápice agora em 2014, ano em que Are We There foi lançado.

capa do 4º disco de Sharon Van Etten

capa do 4º disco de Sharon Van Etten

Neste disco, Van Etten narra de forma convincente e comovente as aventuras e desventuras de um relacionamento amoroso, no qual ela parece ora estar envolvida e ora completamente prisioneira dele, alternando momentos de delicadeza com outras passagens ásperas e tensas. E ela parece convidar o ouvinte a participar desse banquete emocional, como se fossem amigos íntimos. Trata-se de uma qualidade rara nos dias de hoje (lembro de alguns poucos nomes assim de cabeça, como Bat for Lashes, Anna Calvi, Bon Iver e Zola Jesus, como exemplos mais recentes e também de Cat Power e PJ Harveyindo um pouco mais além e em direção aos anos 90), a de causar empatia instantânea no público, não só porque a capacidade de cantar com real emoção é enorme, mas também porque o recorte das letras é bastante semelhante ao cotidiano de muitos de nós nos dias de hoje – e o que é melhor: com zero teor de pieguice ou afetação.

O trabalho de Sharon, de certa forma, é calcado em desilusões pessoais e maturado ao longo de uma vida vivida intensamente desde sua New Jersey natal, passando por uma temporada no estado do Tennessee onde passou a se sentir abandonada artística e emocionalmente após o término de um relacionamento de 10 anos que a levou para lá e até chegar à Nova York, onde vive hoje e convive com artistas renomados como Kyp Malone, da TV on The RadioAaron Dessner, uma das cabeças do brilhante e igualmente melancólico The National.

Num ano até que bem servido de novos lançamentos, Are We There consegue, com louvor, galgar posições rumo às cabeceiras das tradicionais listas de melhores discos que quase todo veículos especializado em música ou cultura pop promove ao fim de cada ano. Faço minhas apostas pesadas nela. E pago pra ver. Quer conferir? ouça: